sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Lembranças -cap-2

Um cheiro.Ela despertou com aquele cheiro impregnado nas narinas.Era cheiro de hospital.Em qualquer lugar do mundo o cheiro era o mesmo.Ela estava internada-denovo.
Começou a fazer um reconhecimento,sentiu as costas apoiadas no colchão da cama,sentiu todos os furos que as agulhas haviam feito nos seus braços.Havia uma sensação de desconforto e familiaridade.
Abriu os olhos somente para ter certeza.
Ah!denovo não!
Ela quis gritar mas o tubo na garganta a impossibilitava de expressar a sua raiva naquele momento.
Olhou para o lado e o viu ali.Sentado numa poltrona desconfortável,com a mesma roupa que o vira pela primeira vez na casa dos pais.
-Vejo que você acordou.
Ela reconheceu o tom de voz, era o Dr.Josef, médico e amigo da família de longa data.
-Lílian! -Você acordou!
Ele falou com um tom de alivio na voz.
- Acho que já podemos tirar o tubo de oxigenação.
Disse o médico.Ela apenas tentou sorrir.
Sentiu as mãos dele nas suas,aquele calor fazia um bem absurdo ao seu corpo. Sentiu a garganta arder,a cabeça rodar,mas no fundo ela já tinha se acostumado com isso.
-Léo...A voz saiu embargada e rouca.-Você está péssimo.
Ele riu.
-É,não é todo dia que uma pessoa cai desmaiada na minha frente.
-Desculpe.
-Não precisa se desculpar,mas você nos deu um susto.
Disse o médico.Dr.Josef era alemão, alto,loiro,com traços fortes e um nariz curvado que o levava a aparentar ser mais velho que seus 55 anos.
-Quanto tempo eu fiquei desacordada doutor?
-Agora você já esta melhor,é isso que importa.Mas manteremos você sob observação.Não achamos nenhuma causa aparente para seu desmaio,mas vamos continuar investigando.
-Quanto tempo doutor?
Ela insistiu,precisava daquela resposta.
-Dois dias.
-Dois dias?!
Ela sentiu seu mundo desabar,dois dias...O tempo de cada episodio estava aumentando drasticamente e ela não sabia nem ao menos o porque daquilo tudo.
-Pela sua expressão presumo que isso já aconteceu antes.
Disse o médico.
-Já.
Foi tudo o que ela conseguiu responder naquele momento.Agora eram 12 episódios ao todo,em um intervalo muito curto.
-A primeira vez foi a 6 meses atrás durante uma apresentação na Suécia.
-E qual foi o diagnóstico?
-Nenhum,os médicos não acharam nada de anormal nos exames.
-Entendo...E todos tiveram essa mesma duração?
-Não.O primeiro durou apenas 15 minutos.A cada novo episódio a quantidade de tempo que eu fico desacordada aumenta.E ninguém descobriu o porque.
-Bom mesmo assim manteremos você aqui pelo menos essa noite,só por segurança.Quanto tempo pretende ficar na cidade?
Ela olha para ele sentado do lado da cama,com a mesma roupa do dia que que se encontraram na cada dos seus pais.Léo...Ele precisava de descanso.
E ela odiava a sensação de saber que também precisava dele.
-Não tenho pretensão de ir embora tão cedo.
O médico sorriu satisfeito e saiu do quarto.
-Achei que detestasse essa cidade pequena e pacata.
Ele disse olhando para as mãos,entrelaçadas como uma só,do mesmo modo que ficavam há 10 anos atrás.
-É...eu odiava,mas chega um momento que crescemos e descobrimos que velhos conceitos não são mais verdades.
-Você esta hospedada no Hotel das Rosas?
-Não, pretendo ficar na casa dos meus pais.Preciso começar a resolver algumas coisas pendentes por aqui.
-Pendentes?
-É,não consigo acreditar no motivo da morte dos meus pais.Acho que existe algo por trás daquele acidente.
Ela se sentiu pequena de novo.Se viu aos oito anos de idade,quando foi obrigada a retirar o apêndice as pressas.O hospital,as agulhas.Era incrivel notar que isso tudo tenha virado uma espécie de rotina nos últimos meses.A sensação de medo e de dor tomou conta dela outra vez.Sabia que mais cedo ou mais tarde teria que enfrentar os fatos.
A única coisa que ela não entendia era o porque daquela carta enviada dias antes da morte dos pais.Sem remetente,sem nome.Carregando uma mensagem sombria e confusa.A única pista era o selo...O selo daquela cidade minúscula e pacata.

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